Às vezes, o sol faz arder
- Passa protetor solar menino.
Talvez esta seja a frase que mais escutei em toda minha vida. Desde pequeno tive a pele muito clara e por isso minha mãe sempre me lembrava de passar o bendito bloqueador solar, e nem assim escapava do vermelhidão no dia seguinte. Eram sessões de lambuza atrás de sessão de lambuza. Ficava até brilhando de tanto protetor, isto quando não ficava aquela camada branca por cima da pele.
Mas por que me lembrei disto? Talvez porque esteja um calor infernal aqui no escritório, ou ainda porque é recesso escolar por aqui. Gostávamos de viajar nesta época, afinal, baixa temporada tudo é mais barato e, diga-se de passagem, mais vazio.
Mas talvez tenha me lembrado disso, por ter me lembrado de outros conselhos que meus pais me davam quando pequeno e insistia em não segui-los. Não pegue coisas emprestadas, faça seus deveres, estude para a prova, não tome detergente, não converse com estranhos, não cace briga e por aí vai.
Não, talvez também não seja isto. Talvez seja aquele texto traduzido por Pedro Bial – Filtro Solar. Lá ele diz que não pode dar muitos conselhos apenas que se use filtro solar. Talvez ele também tivesse uma mãe assim como a minha que gostasse muito de filtro solar. Mas, pensando bem, na infância do Pedro Bial, não devia estir o Sundown e outros do gênero.
Já sei porque me lembrei disto. Foi por causa das tais conseqüências. Aquelas, que nossos pais sempre nos falavam que existiam mas acreditávamos nelas tanto quanto em Papai Noel, Coelhinho da Páscoa e Político Honesto. Sabíamos que poderíamos até arcar com algumas conseqüências mas nenhuma delas seriam tão ruins afinal, quem dosava tais conseqüências eram nossos pais.
Mas algumas eram inevitáveis, como, por exemplo, sair ao sol sem protetor solar. Isso era do mal, a natureza é impiedosa, ela não quer saber os motivos pelos quais você tomou aquela atitude e as conseqüências você sente, literalmente, na pele. Saia sem protetor e noutro dia, pronto. Acabou-se praia, sol, banho de mar, castelinhos de areia e passeios diurnos pela orla. Nem adiantava chorar pelo leite derramado, ou melhor, pelo protetor desprezado.
Talvez, se todas as pessoas tivessem sofrido com o descaso com o protetor solar, se preocupariam muito mais com o que fazem hoje. Porque quem sofreu sabe, que o sol pode até se muito legal na hora, mas às vezes, o sol faz arder.
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