segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A menina que sorria com os olhos

Ela sorria com os olhos. Ele não a conhecia muito bem, mas pelo pouco que viu, tinha esta certeza: ela sorria com os olhos. Era um sorriso lindo, encantador e por isto mesmo, apaixonante.

Ele já a havia visto algumas vezes, mas o mesmo sorriso que lhe encantara, também o intimidava. O que ele queria dizer? Era um convite? Era apenas simpatia? Ou não era nada e ela só sorria por sorrir? Estas duvidas o paralisavam. Ele queria se aproximar, tocá-la, sentir seu perfume e abraçar seu corpo. Mas como? Ele mal a conhecia.

O sorriso que marcava tão profundamente seus pensamentos e habitava seus sonhos lhe parecia inalcançável e em seus devaneios ele queria ser o maior motivo por ela sorrir. Queria poder sentir que o brilho daqueles olhos risonhos era por causa dele, e que nada, nem ninguém poderia mudar isso. Emergindo de seus sonhos, ele voltava a realidade e voltava e pensar: “Não pode ser isto, alguém que há pouco conheço, já deve ser conhecida há muito tempo por outra pessoa, e talvez, esta seja a pessoa pra quem aqueles olhos sorriam.”

Na cabeça dele, pessoas como ela, dificilmente se encontraram sozinhas. São cobiçadas, desejadas, fáceis de amar. Mas um dia ele viu aquele sorriso, mas não lhe parecia o mesmo, era um sorriso mais sério, mais superficial, não lhe parecia o mesmo sorriso que o encantara e dominava seus pensamentos. Não ousou perguntar quem havia causado aquela transformação, mas sentia que algo errado acontecia naquele coração. De impulso quis saber o que aconteceu, queria poder castigar o infeliz que tirou o brilho daqueles olhos. Mas nada pode fazer, eles mal se conheciam.

Pensava em ligar, convidá-la para sair, mas o medo falava mais alto e uma voz inconveniente lhe dizia: “Pare com isso, se ela perdeu o sorriso que carregava antes, não será você que irá devolve-lo” e então ele pensava melhor, recuava e desistia. Mas duvida ainda alimentava sua ansiedade. E isso o assustava. Como poder gostar e desejar alguém que mal se conhece? Sua racionalidade e capacidade de enfrentar o mundo, adquirida a duras penas durante anos não lhe serviam de nada. Tudo isso se desfazia diante de um sentimento bobo, inocente, platônico e ele voltava a se sentir como se tivesse 15 anos, ou menos.

Ele voltava a deixar seu corpo deslizar na poltrona, fechava os olhos e se perguntava incessantemente o que fazer. Não queria se declarar, falar de sentimentos já está fora de moda, se forem platônicos então, piorou. Não queria mostrar interesse, mas a cada dia lhe parecia mais difícil. Não queria se mostrar ansioso, mas as tentativas de se aproximar o entregava.

Preferiu, por fim, esperar o momento certo, mesmo não sabendo direito o que é o momento certo. Lembrava que na hora do medo, a melhor solução é parar, pensar bem sobre o que fazer e esperar a hora certa. Agir nesta hora, geralmente dava resultados catastróficos, e não era assim que ele imaginava o fim desta história.

Gostaria de poder dizer que no fim, tudo deu certo, ou apenas afirmar que na confusão de seus sentimentos preferiu se afastar a ser rejeitado, ou ainda que a menina que sorria com os olhos descobriu seus sonhos e afastou-se. Mas, esta história ainda não chegou ao fim e algo me diz que ainda está longe de acabar.

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