quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Mais Um

Lá se vai mais um.
Mais um qualquer um.
Mais um João, José,
Silva ou um nome qualquer

Lá se vai mais um.
Brincado de ser herói.
No vicioso ciclo
em que tudo que constrói
ele mesmo destrói

Lá se vai mais um
Mais um arrependido.
Mais um sem culpa,
que se culpa
por ter perdido

Lá se vai mais um.
Diminuindo o que é
em nome de quem não o quer
Tentando ser o que era
num eterno compasso de espera

Lá se vai mais um.
Tropeçando no escuro,
se sentindo inseguro
Que teima em se sentir errado
quando o erro está do outro lado

Lá se vai mais um
Que encara seu medo
que tenta se livrar do apego
mas nunca encontra sossego

Lá se vai mais um
Mais um qualquer um
Que a passo lento
Vai vendo passar o tempo

Lá se vai mais um.
Mais um que se aprisiona
em uma jaula feita de vento
com cadeados feito de medo
forjados pelo seu pensamento

Lá se vai mais um.
Mais um que tem coragem
de se assumir covarde
Mais um que admite a dor
sem medo e sem pudor

Manoel de Barros - O Apanhador de Desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Poema Sem Nome XIX

Sonhos insanos
gerados por um dia sonso.
Sonso? Não.
Melhor, sem sal, sem sabor
sem cheiro, sem amor.

Cotidiano interminável
que conta de trás pra frente.
Conta-gotas, cotra-gosto
assim mesmo, nada diferente

Vivo sem saber
que o sonho que sonhei
não são tão insanos
são apenas uma repetição, um replay

Replay. Deste jeito
sem feedback ou fast-forward
sem stop, nem slow motion.
Apenas repetição daquilo rejeito

Não nego o que sou,
nem o que fui ou serei.
Mas quem nunca pensou
em um dia ser rei?

Eu não pensei.
Da corte, quero ser o bobo
Isto. Prefiro o bobo a rei

O bobo quando cai
é apenas uma piada
Um rei quando cai
leva seu reino a derrocada

E, sendo assim, já fui rei.
O reino: meu coração.
Caí, e por lá fiquei
meu reino como está?
Sinceramente? Não sei

Vou ser bobo?
Bobo da corte?
Rir do irrisível,
rir do medo que me ataca
sempre invisível?

Não. Melhor mesmo é ser poeta.
Ser um fingidor e fingir que não é dor
aquilo que de fato sente.