Amores Platônicos
Quem acompanha o que escrevo, o que não deve ser mais do que eu e uma ou duas pessoas, deve pensar que sou a pessoa mais sentimental do mundo, que sonha com amores de contos de fadas, acredita em alma gêmea e que o amor tudo pode. Estas afirmações não deixam de ser meias-verdades, caso não acreditasse nem que seja um pouco em cada uma dessas coisas, nunca poderia ter dito que amei. No entanto, sentimentos não são o meu forte. Geralmente, me atrapalho todo e meto os pés pelas mãos.
Me recordo dos meus amores pré-adolescentes, quase infantis. Geralmente, ficava olhando de longe, querendo me aproximar, mas com medo de me sentir um idiota nada fazia e, por isso mesmo, nada acontecia. Como fuga, criava e destruía amores em forma de textos, poemas e poesias. Apesar de não considerar de todo ridículo, isso nunca me ajudou com as pessoas que alimentavam minhas paixões. Posso citar aqui, pelo menos meia dúzia de pessoas por quem me apaixonei, sofri e esqueci, sem nunca ao menos ter tentado dividir o que sentia. Quando conseguia dividir era de forma exagerada, atrapalhada e mais afastava do que aproximava. Lembro-me de uma vez que no meio de uma paixão desordenada, sofria por não a ter, e um belo dia resolvi desistir,e pior, resolvi através de um poeminha dizer que havia desistido dela sem nunca ter dito que queria estar com ela. Hoje me sinto ridículo por isso. Tempos mais tarde (ou foi antes?), fui responsável por outra paixão desordenada, desta vez, eu era até próximo da pessoa, mas com atitudes nada normais e completamente intimadoras consegui a afastar, e pior, a fiz tomar raiva de mim.
Meus 12, 13 anos, já se passaram há tempos, mas essas experiências voltam a me visitar vez ou outra, talvez para acordar a criança interior que há em mim, talvez para me fazer querer acreditar no amor romântico, dos tempos de Capitu, onde cartaz de amor e declarações apaixonadas, valiam muito mais do que valem hoje. Então fico ali, desejando de longe, distante, querendo me aproximar mas, sem saber quando, ou como. Coisas que geralmente parecem e realmente são simples de se fazer, mas que se intrometem entre mim e a pessoa, como se fosse um muro gigantesco dizendo que eu posso querer, mas não posso conseguir.
O amor platônico é assim, apaixonar sozinho, sofrer sozinho, esquecer sozinho e ninguém no mundo sabe sequer de qualquer um destes acontecimentos, pois, o amor platônico é oculto aos que estão do lado de fora (talvez por sua natureza constrangedora para aquele que “ama”). Apaixonar-se por quem se conhece bem é algo natural e geralmente recíproco. Apaixonar-se a distancia é quase uma patologia, um evento bizarro causado por um distúrbio qualquer.
Certa vez, me perguntaram qual o porquê desse sentimento e eu não soube explicar. Ele vem sabe-se lá de onde e fica sabe-se lá porque. Não há um motivo real, nem sempre elas são as mais belas, nem as mais inteligentes, nem as mais cobiçadas, elas são apenas eleitas por um coração burro, suscetível a paixões passageiras e solitárias. Nestas horas vem o incomodo de ver que toda experiência que adquiri até aqui, de nada me servem diante destes sentimentos desordenados que me visitam, abalam meu mundo e vão embora como se fossem bárbaros que vem para destruir mas nunca para ficar.
A bola da vez é uma adolescente, ainda cheia de sonhos e expectativas em relação a vida, faculdade, carreira. Que culpa ela tem? Nenhuma. Nunca eu esperanças, ou me fez acreditar que poderia sentir algo por mim. Nunca me olhou de forma diferente, nem me disse algo que poderia considerar como oportunidade para me aproximar mais. Ela simplesmente é o que é, a culpa é minha, por mais uma vez, abrir espaço para uma paixão platônica sem ter ao menos uma justificativa plausível que se revela-se para mim e dissesse: você pode se sentir assim. Muito pelo contrário, tudo que aprendi com a vida, com os amores reais e as paixões desordenadas olha pra mim e com um tom intimador me questiona: Como pode se sentir assim? A resposta é sempre a mesma: não sei.
Mas com sentimentos assim só há duas alternativas e as duas frustrantes do ponto de vista do desejo que me domina. A primeira é me abrir, declarar e despejar tudo em cima da mesa, destruindo qualquer possibilidade de evolução, como sempre acontecia em experiências passadas. A segunda alternativa é deixar para lá, esquecer e colocar uma paixão mais palpável no lugar. Funciona, mas me instala uma duvida no peito e uma curiosidade na cabeça: como poderia ter sido se eu tivesse tentado?
Procuro uma terceira via e aceito sugestões. Mas como bom amante platônico que sou, tenho a impressão de que sugestões não surgiram e uma terceira via é algo improvável de acontecer. Tudo porque é solitário apaixonar-se desta forma e é solitariamente que se encontram as soluções para as confusões do coração.